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Bolonha: a golpada nas universidades

(ACT. 06/11) O famigerado processo de Bolonha revela-se cada vez mais um subterfúgio para o Estado dar a golpada financeira no ensino superior público. A dimensão da fraude torna-se evidente, à medida que os cursos vão sendo reformulados.

Vejamos o caso do meu curso, Comunicação Social da Universidade do Minho. Com a mudança para Bolonha, a “licenciatura” passa de cinco para três anos, e os 4.º e 5.º ano passam a constituir o chamado segundo ciclo. A escandaleira está num aumento desproporcionado e injustificado de propinas para estes dois últimos anos, agora transformados em segundo ciclo. Vejamos novamente o meu caso (que é o de todos os alunos do curso): em 2006/2007 paguei 940 euros de propina anual para frequentar o antigo 4.º ano. Este ano vou pagar 1375 euros, porque passei para o segundo ano do segundo ciclo. Fazendo as contas, é um aumento de quase 50 por cento nas propinas, o que, por si só, é (não conheço outro nome) uma roubalheira.

Convém não esquecer que o meu curso não é caso isolado e, exceptuando as especificidades que acabo de expor, a mesma situação ocorre, mutatis mutandis, em dezenas ou centenas de outros cursos. Basta lembrar o que disse o ministro Mariano Gago, há um ano atrás: “as propinas de mestrado vão ser iguais às de licenciatura para os cursos em que este grau de ensino seja necessário ao acesso dos alunos à profissão“. Ou seja, para o Estado português, um curso de três ano é o mesmo que um curso de cinco, desde que não haja nenhuma Ordem (Arquitectos, Médicos, Engenheiros,…) a exigir uma formação de cinco anos para acesso à profissão.

Conclusão número um: é a “morte” (para efeitos de financiamento público) das Ciências Sociais, das Artes, de muitos cursos de Ciências Exactas. Conclusão número dois: o financiamento estatal do ensino superior é definido por um único critério subjectivo (o poder de uma determinada Ordem).

Infelizmente, Alberto Amaral, professor universitário e antigo reitor da U. Porto tinha toda a razão quando, há anos, alertou para as “agendas ocultas” de Bolonha (link actualizado, documento PDF, 765kb) e para o corte no financiamento das universidades que o processo ia acarretar. Amaral não foi o único a alertar que Bolonha só serve para poupar dinheiro. Mas ninguém lhe deu ouvidos, e aqueles que deram, a seguir calaram-se – ou perderam o pio. É curiosa a reacção na altura do professor Manuel Pinto, alguém ligado ao meu curso, precisamente: “Se as considerações que ele [Alberto Amaral] tece têm algum fundamento, não nos faltariam razões para emigrar… ” É pena que tamanha preocupação do professor Manuel Pinto não tenha travado uma mudança para Bolonha que é extremamente penalizadora. Para já, quem paga as favas são os alunos. Mas o país que não descanse à sombra da bananeira – a factura há-de chegar.

Post-scriptum: Questionados várias vezes, por diferentes alunos, desde Junho passado, os responsáveis do curso de Comunicação Social da Universidade do Minho foram respondendo sempre que não sabiam qual seria o valor da propina (eu dizia que ia ser muito alto, mas não tinha provas). “Um aumento de 20 por cento até será justo”, respondeu na altura a directora do curso (cito-a de memória). Acontece que há dias ficámos todos a saber que o aumento é de quase 50 por cento e que esse valor foi fixado pelo Senado em Julho. Cada um tira as suas conclusões. Eu digo apenas isto: lamentável…

ACT. 07/11: Leiam o que acrescenta Manuel Pinto na caixa de comentários a este post. É informação relevante.

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