Category Archives: Bitaites

Subsídio para acabar com as asneiradas

[SET VIMARANES MODE]

Nos últimos dias surgiram pela blogosfera minhota diversas análises sobre a realização da Capital Europeia da Cultura 2012. Não costumo dedicar este blogue a discutir questões locais, mas porque as asneiras me parecem ser o único denominador comum de muitos dos textos que tenho lido, decidi deixar aqui mais alguns apontamentos sobre o tema.

Tudo começou com uma notícia publicada no passado fim-de-semana no PÚBLICO, que eu próprio assinei, e onde se revela algumas das premissas da organização que o município de Guimarães vai levar a cabo. O texto publicado não inclui tudo o que escrevi e infelizmente quem gere o Público.pt não teve a sensibilidade para (ou vislumbrou interesse em) colocar o trabalho na íntegra na Internet (onde a falta de espaço não serve como desculpa). A mesma crítica poderia ser dirigida a mim próprio, uma vez que tive de resumir em 5600 caracteres um dossiê que tem 140 páginas. Escolhi o mais importante? Talvez sim, talvez não, cada um terá o seu crivo, embora eu tivesse tentado usar o critério do interesse público e noticioso. Vamos então por partes.

A crítica de Bruxelas: Aparentemente, a Europa ainda não se esqueceu das trapalhadas que envolveram a liderança na Porto 2001 (sublinho que se trata de uma suposição minha). Por isso mesmo, alguma preocupação terá sido demonstrada pelo júri (isto, pelo contrário, é um facto) com a ausência de um nome para a direcção do evento. É certo que estamos a quatro anos e meio de distância e que o perfil está traçado, logo nem o júri, nem a Europa nem nós devemos preocupar-nos demais com esse facto.

O programa: de entre as coisas que foram escritas para a referida notícia, mas não publicadas, constam algumas propostas do programa. Dou apenas três exemplos, exactamente aqueles que me parecem significativos- a realização da 1.ª Trienal de Desenho de Guimarães (em colaboração com o departamento de Arquitectura da Universidade do Minho); a realização do Encontro Europeu de Cinema (em colaboração com o Cineclube de Guimarães), um evento que se pretende transformar num acontecimento de “nível mundial”;  uma exposição dedicada à arte digital, com a colaboração de diversas universidades internacionais. Há mais, mas não quero estragar (mais) a ansiada conferência que a Câmara quer realizar com o senhor ministro da Cultura. Julgo que estas novidades chegam, no entanto, para demonstrar que aqueles que até agora têm comentado em prol da pobreza do evento deviam lembrar-se que falam do que não sabem, por culpa própria e por culpa da organização, que na ânsia de fazer render o peixe, quis manter segredo sobre a candidatura, numa estratégia de comunicação incompreensivelmente errada. Só posso desejar que os oito milhões de euros que o orçamento prevê para a estratégia de comunicação da CEC 2012 não sejam geridos segundo estes critérios (que basicamente se preocupam com o “spin”). Querem saber o que planeia fazer Maribor, a cidade eslovena que vai partilhar o estatuto de CEC 2012 com Guimarães? Basta consultarem o site criado por esse município (juro que não aprendi este argumento com o PSD de Guimarães!)

O orçamento: 111 milhões de euros é mais que o custo final da Casa da Música (incluindo derrapagens). É muito? É pouco? Ouvi (li) estas perguntas enquanto tomava a bica da praxe num dos bons cafés de Guimarães (digo bica, apenas para não dizer café duas vezes na mesma frase, e porque cimbalino ainda me soa pior). São perguntas que a meu ver não fazem sentido. Um orçamento é uma previsão de despesas e receitas (credo, já pareço o Sócrates…). Nada garante que o preço final seja esse, que fique abaixo ou acima. O importante é ver em que é que esse dinheiro será gasto, como e com que resultados. Já o facto de o valor de todo o evento ser pouco mais do que um único equipamento construído para a Porto 2001 parece dar-nos alguma perspectiva. Do mesmo modo, poderia a análise fazer-se comparando o orçamento da CEC 2012 com o orçamento anual da Câmara de Guimarães, embora (sublinhe-se) 111 milhões de euros de CEC destinam-se não a um ano mas a seis anos. Conclusão? Guimarães tenciona gastar menos que o Porto, porque não tenciona construir uma Casa da Música ou um Guggenheim (o que também mereceu um comentário em Bruxelas, segundo as minhas fontes). Quem, por agora, faz contas de cabeça (e por cabeça), deveria ter um pouco mais de calma, para não colocar a carroça à frente dos bois. Digo eu, que nunca tive braços fortes, mas sempre fui bom a Matemática (sem modéstia).

Os bairrismos: É bom que algumas leituras menos sensatas que tenho encontrado na blogosfera tenham em atenção o seguinte – a candidatura de Guimarães é, em rigor, uma candidatura nacional. O que está planeado respeita esta responsabilidade nacional, começando desde logo por se centrar na vizinhança. Ou seja, o bairrismo (provincianismo? inveja? falta de humildade?…) de alguns comentadores locais/regionais não vai certamente atrapalhar os pés a ninguém, a não ser dos próprios. Não me cabe fazer (nem o pretendo fazer) a defesa do projecto. Mas entristece-me que haja quem não perceba que se mais não vai ser feito (em Guimarães ou na vizinhança) é porque a oferta não dá para mais. Isso sim, dá que pensar, e a própria candidatura é honesta a esse ponto, assinalando as deficiências culturais, sociais e económicas que a cidade escolhida e a região envolvente apresentam. Curiosamente (ou não), sobre isto ninguém parece ter uma ideia para acrescentar ao debate. Bom proveito, pois então.

[END VIMARANES MODE]

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PS: Para acabar com a má-lingua vale tudo

AR: PS quer proibir colocação “piercings” na língua.

Verbaliza a sua insatisfação/satisfação através de críticas destrutivas potenciadoras de instabilidade no seio dos seus pares?

Faz hoje um mês que regressei ao país vindo de Madrid. Na altura, abandonei uma Espanha em pré-campanha eleitoral, ainda longe de imaginar que tudo acabaria em sangue. A ETA, ou quem em nome dela agiu na matança de mais um político (desta vez do PSOE), expressou o seu voto – balas, na verdade. Saibam os espanhóis responder nas urnas.

Mas falava do meu regresso. De volta a casa, retomei a colaboração com o PÚBLICO a partir de Guimarães, agora com a companhia do Samuel Silva, um velho compagnon de route (apesar de 12 anos mais novo que eu), que continuará a dar provas do seu talento jornalístico. Em suma, tem sido um fartote (e isto não é uma queixa). Mas a juntar a outros afazeres, e partilhando sentimentos de outros, fiz do PROMETEU a primeira vítima. Faltou actualização em dias que foram agitados, mas não deixei de andar por aí, como diz o outro. Aliás, entro agora na área de trabalho do blogue e constato que tenho onze posts na caixa de rascunhos. Porreiro, pá… em rigor, continuei a escrever (mesmo que menos). Deixei foi de publicar, por razões que não vêm agora ao caso, mas não se admirem se alguns dos textos ainda vierem aqui parar, mesmo que atrasados. Há quem tente compreender a blogosfera. Não vale a pena. Seria preciso entender primeiro o género humano.

A segunda vítima foi (e aqui as coisas já se complicam) a dissertação final do 2.º ciclo (há quem lhe chame tese de mestrado, mas eu prefiro a versão do Samuel: é uma tesinha). Cumprir esta etapa vai ser uma cena à Fantasporto, uma corrida fantástica do terror científico (género como-escrever-uma-tese-de-50-páginas-em-menos-de-três-meses-sem-perder-a-dignidade), planeada ao jeito de Bolonha. Prazos impraticáveis, a preços elevadíssimos. Mas aguentem-se aí, porque a coisa já rola e o projecto será entregue a tempo.

O que eu quero ver no meu jornal online amanhã de manhã (ou a qualquer hora)

A premissa do título é uma invenção. O meu jornal online é um prejuízo, logo, o meu jornal é uma ficção. Logo para começar, teria uma redacção galáctica. Só para pagar àquela gente não chegariam as receitas actuais do Correio da Manhã e do JN, mais os prejuízos do DN e do Público e ainda a lábia do director do Sol, fora as prebendas do Expresso. Quantidade e qualidade em partes iguais para alimentar a fé de que estamos a dar aos leitores o melhor acesso à informação mais importante e às ideias que circulam, com a responsabilidade de liberdade que uma ética do jornalismo (ainda) exige. Reparem: melhor, importante, livre – luxos para a imprensa moderna. Luxos caros.

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Por detrás de um mau político, está sempre…

Este post não tem interesse para a maioria da blogosfera portuguesa, a não ser que eu acrescentasse que o líder do PSD, Luís Filipe Menezes, bem se esforça por imitar o líder do principal partido da oposição em Espanha, o PP. Mas a verdade é que fazer pior que Mariano Rajoy é difícil, muito difícil. Por isso deixo-vos com um dos primeiros cartazes da pré-campanha para as legislativas espanholas, que é da autoria do Partido Socialista da Catalunha. Diz tudo sem uma palavra, logo é um bom cartaz.

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(da esquerda para a direita: Mariano Rajoy, Angel Acebes,
Eduardo Zaplana, Esperanza Aguirre e José Maria Aznar)

Living la vida loca

heli-madrid.pngUm helicóptero do Cuerpo Nacional de Policía sobrevoa o meu bairro aqui em Madrid há mais de uma hora. Culpa da proximidade com o estádio Vicente Calderón, onde dentro de minutos vou ser um corpo estranho no meio de milhares de colchoneros e alguns merengues a assistir ao derby futebolístico entre Atlético e Real. Há três carros da polícia e uns dez agentes literalmente estacionados no meio da rua, junto ao simpático (mesón) meson “La Esquina de Eusébio”, que ostenta um galo de Barcelos por cima da porta de entrada e onde acabei de beber um café Delta (mal tirado e pago a 1,30 euros, mas sempre é Delta e português).

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O bilhete mais barato para o derby custa (custou-me) 65 euros. Passeios e ruas foram invadidos de carros estacionados. A exaltação das claques entra-me pela janela dentro: cânticos, foguetes, palmas, eles não se calam e parecem ser cada vez mais numerosos, e com mais força na garganta. A loucura está no ar. As sirenes da polícia também. E eu ainda não decidi se torço pela equipa do Pepe e do Casillas, se pela equipa do Simão e do Agüero. Seja qual for o resultado entre madrilenos, o dia está ganho porque a minha equipa fez aquilo que lhe competia. Fui. 

Venha daí esse provedor do cibernauta

Deve haver poucos portugueses com uma ligação à internet que se sintam totalmente satisfeitos com o serviço e o preço cobrado pelo respectivo Internet Service Provider (ISP) em Portugal. Há casos quase patológicos de insatisfação (qualquer cliente Netcabo, por exemplo, sabe do que estou a falar), mas as queixas não são um exclusivo nacional. Ao contrário do que muitos poderão pensar, a verdade é que “lá fora” é como “cá dentro”. Os espanhóis, por exemplo, sentem-se “chulados” pelos ISP e ainda há dias se queixaram publicamente das (más) condições de mercado no acesso à banda larga. Numa penada, nuestros hermanos – que são campeões mundiais nos downloads, segundo um estudo internacional realizado em 2007 – queixam-se de serem os europeus com a banda larga mais cara e mais lenta e, não admira pois, que exijam um novo modelo de regulação, que defenda os clientes e garanta preços justos para serviços de qualidade.

Problemas com os quais poderíamos nós muito bem, não fosse a sina portuguesa tão má quanto a dos vizinhos do lado, que dizem esperar dez minutos ao telefone, em média, para serem atendidos pelo apoio ao cliente dos ISP (dez? isso não é nada dirão uns tantos cibernautas portugueses). Infelizmente, até agora ainda não se encontrou um modelo de regulação eficaz para pôr termo aos desmandos dos prepotentes ISP, que não hesitam em prometer este mundo e o outro através da publicidade e, uma vez conquistado o cliente, largam este à mercê da triste realidade que é pontuada pela incompetência (quando não a má vontade). A Anacom nunca foi (e talvez nunca venha a ser) aquilo que muitos de nós gostaríamos e, concluindo, resta ao azarado cliente protestar aos ouvidos das inenarráveis linhas de apoio ao cliente (muitas delas fazendo-se pagar a peso de ouro em cada chamada recebida).

O que fazer para mudar este estado de coisas? A nível europeu, parece não haver grandes ideias. A Comissão Europeia pensa na criação do mercado único de conteúdos digitais – o que demonstra mais preocupação com as empresas de conteúdos e o copyright do que propriamente com um fair market de Internet. Fora isso, fala-se na criação de um provedor do cibernauta, uma figura já existente na Comunidade de Madrid, e que ontem foi proposta pelo Partido Socialista Espanhol, o PSOE, para toda a Espanha. É uma proposta simpática, avançada como proposta eleitoral num encontro que serviu também para os dirigentes do PSOE passarem a mão no pêlo dos jornalistas aqui do lado, numa altura em que o país está a dois meses de eleições legislativas. Fica por isso a dúvida se é uma ideia para levar a sério, ou se não passa de um sound byte eleitoralista do partido de Zapatero. Mas que já faz falta quem nos defenda da mala educación dos ISP, disso parece não haver dúvidas.

Outras histórias: 

Notícias publicadas ontem por mão própria nas secções de Tecnologia e de Cultura do ELPAÍS.com: originais do Goya, do Velázquez, ou do Cervantes estão desde ontem disponíveis gratuitamente em formato digital no site da nova Biblioteca Digital Hispánica – são mais de 10 mil documentos online, para consultar ou descarregar sem custos; e na Grécia foi descoberto um caderno de desenhos que se crê ter sido do pintor holandês Vincent Van Gogh.