É no que dá o jornalismo preguiçoso

Há dias, recebi na caixa de e-mail o comunicado à imprensa mais estranho dos últimos anos. Resumindo em poucas palavras, anunciava a constituição de uma sociedade comercial para abrir um café no Largo do Toural, em Guimarães, com ltmdtac.jpgo nome de (adivinhem lá…) Café Toural, designação de um café mítico para aquela cidade. O caso que cito acabou mal para (pelo menos) um jornal local, que acabou por publicar uma peça falsa com grande destaque, evidenciando o pior do jornalismo sentado que se pratica por aí.

O “press release” acrescentava ainda que a tal sociedade comercial estava naquele momento a negociar a realização do projecto com “um importante arquitecto espanhol”. 

Porquê a estranheza? Primeiro, o comunicado era assinado por um Relações Públicas que não incluía qualquer contacto, nem da sociedade nem da agência de comunicação. Mau profissional, ainda pensei… Segundo, o press release anunciava que a inauguração aconteceria no dia da reabertura do Largo do Toural depois das obras de renovação urbana a que vai ser sujeito (problema: nem a autarquia sabe quando começam as obras no largo; dois, três, quatro, cinco anos?).

Obviamente, desconfiei daquilo tudo, embora já sonhasse com um edifício do Santiago Calatrava plantado no meio de Guimarães. Mas fiz então aquilo que qualquer jornalista faria (pensava eu), ou seja, respondi ao mail fornecendo os meus contactos todos e pedindo um contacto pessoal com representantes da sociedade e mais informações. Recebi logo uma reposta, também por e-mail, onde me diziam que estavam em Albacete a negociar com o arquitecto, mas que assim que regressassem ao país, entrariam em contacto. Entretanto fiz outros contactos, inclusive outros camaradas jornalistas, a câmara local, historiadores que, por acaso, até foram clientes do Café Toural original, que foi uma espécie de viveiro cívico local até à década de 1970. Mas uma semana depois, tive que voltar à carga e mandei novo e-mail. Responderam-me então assim:

(…) A notícia do Café Toural foi um simples exercício para ver como funcionava o nosso jornalismo de copy & paste. A verdade é que o resultado foi deveras curioso… (…) Portanto, a abertura do Café Toural não é, infelizmente, notícia. A não ser este Café Toural, onde, não tarda, aparecerá algo sobre esta não notícia.

Apesar do método enganoso, foi curioso e revelador de quem é preguiçoso e não cumpre regras elementares do jornalismo como a verificação de informação e o cruzamento de fontes. Curioso e revelador da facilidade com que, tendo um e-mail à disposição, se pode interferir com as agendas mediáticas, inclusive com falsidades – basta encontrar jornalistas preguiçosos.

O caso acabou mal para o semanário local Expresso do Ave que, na edição n.º 827 de 10 de Outubro de 2007, dedica a página 3 à reprodução quase na íntegra do comunicado falso, e chamava o assunto à capa com um título em destaque que dizia “Querem reabir o café Toural”. Lamentavelmente, uma notícia falsa, construída a partir de um comunicado falso lançado por bloggers. É no que dá o “jornalismo” preguiçoso.

PS: Como nem sempre o semanário em causa me chega às mãos, não sei se entretanto o jornal já publicou um desmentido.

6 responses to “É no que dá o jornalismo preguiçoso

  1. O ‘caso sokal’ (versão mini) dos jornalistas😀

  2. O jornalismo cada vez mais passa pela blogosfera.

  3. João Monge:
    Discordo. Vejo muita vontade de informar, mas pouco jornalismo na blogosfera.

  4. É “copy & paste” tanto lá, quanto cá… os jornais, falo aqui do Brasil, mas pelo visto acontece o mesmo aí em Portugal, cada vez mais se baseiam em press releases e declarações oficiais… e os blogs se baseiam em opiniões pessoais e informações colhidas na internet, muitas vezes sem uma checagem mais profunda dos fatos. Estou para ver um blogueiro que pegue o telefone ou vá a campo checar as informações também…

    Então é como nosso amigo Victor Ferreira aí em cima falou… há muita vontade de informar, mas jornalismo mesmo, nem os jornais nem os blogs estão praticando direito.

    Se queremos então saber o que realmente está acontecendo no mundo, primeiro lemos nos jornais o relato superficial, nos aprofundamos nas revistas semanais e vemos os bastidores nos blogs bem informados…

  5. Notável, notável…!

    DS.

  6. Eu pergunto: Como e o que devem ser o jornalismo e a informação num jornal escrito nos nossos dias?!
    E como evitar que os média sejam controlados e possam resistir a pressões de vária ordem qie lhes permita não “misturar” relações comerciais, ou outras, com conteúdos redactoriais que possam pôr em causa o direito de casa um a uma informação honesta, escorreita, independente e fiável?!

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