O novo Público – primeiras impressões

(A poucos dias) A um ano de atingir a maioridade, o jornal Público mudou de estilo. Ao cabo de três edições, algumas impressões:

(+)

+ O modelo da nova página (o seu desenho geral)
+ A qualidade geral da fotografia publicada, agora a cores
+ Maior recurso a outras formas de ilustração
+ A arrumação/hierarquização informativa (mantém-se o Detaque Destaque diário e reorganizam-se as secções)
+ Maior recurso à infografia
+ Maior diversidade de géneros narrativos, muito por culpa do novo caderno P2, onde a abordagem à realidade quotidiana pode coexistir mais facilmente com a criatividade da redacção.
+ A inclusão das páginas da secção Local no primeiro caderno do jornal. Oferece ao leitor uma maior proximidade com as regiões, reconhecendo a estas importância e estatuto noticioso.
+ A retirada das páginas de cotações da secção de Economia. Eram um anacronismo (e ainda são, em alguns jornais). Na nova versão do Público, há uma súmula, pequena. Não as duas páginas de antigamente. Que já eram velhas antes de serem publicadas.

(-)

O novo logotipo. Dizer que o logotipo só deve mudar de 100 em 100 anos é ser conservador. Ainda por cima na época errada. Parece mais sensato admitir a mudança. Afinal, são 18 anos de vida a partir de Março. Aos 18 anos, qualquer um de nós muda. E o Público poderia mudar também. Mas nunca para a opção tomada. O P é graficamente indistinto e indistintivo. Fica uns furos abaixo em relação ao estatuto de referência atribuído ao jornalismo daquela casa. O logotipo anterior tinha essa vantagem de ter lá todas as letras do nome, de ser completo. E por estilização do tipo, quer dizer, a fonte, o mesmo nome adquiria uma marca visual distinta de tudo o resto e distintiva num universo fortemente (e cada vez mais) visual. Pelo contrário, a nova imagem gráfica do Público é apenas um P, uma letra, que podia estar grafada ali ou num qualquer panfleto. Ainda por cima está a vermelho, uma côr quente, é certo, mas semafórica, mais próxima da histeria do que da serenidade. É o único ítem em que dou nota. Numa escala de zero a 20 dou 2 valores (obviamente por terem acertado na primeira letra do nome do jornal).
As chamadas para outros textos no topo das páginas. Chamo-lhes “hyperlinks de memória” do leitor porque esta ideia me parece seguir a lógica dos links. Não sei se foi. Apenas especulo, tendo em conta o posicionamento que a publicidade ao novo Público parece transmitir ao mercado. O problema é que o suporte aqui é o papel e o texto não é hipertexto, portanto as frases que vão no cimo da página, ainda que separados separadas por um fino filete, só atrapalham. Podemos saltar páginas ou secções na leitura em papel, mas a lógica comum não é assim tão dinâmica como no formato hipertexto. O efeito no novo Público acaba por ser este: sugere-se ao leitor que mude para a página tal por causa do asunto tal ainda antes de ele ter posto os olhos na informação que consta na página em quen acabou de entrar
As semelhanças gráficas do modelo da página do novo Público com a imagem do Independente de uns cetos tempos. Quando abri a edição de estreia do novo grafismo do Público, fiquei imediatamente espantado com as semelhanças, que vão ao pormenor de parecer imitar o formato das legendas e o seu modo de inserção sobre as fotos, tal como era usual numa determinada época do Indy. Isto é mau? Não necessariamente. No caso, só é pena que a reformulação integral da página gráfica e, já agora, que a vasta recomposição dos quadros redactoriais  (jornalistas, fotográfos, gráficos) não tenham servido para, pelo menos, obter algo de realmente novo(sobre outras semelhanças gráficas do novo Público, ver links no fim deste texto).
O empobrecimento geral do conteúdo do jornal. Não fiz um estudo rigoroso, isto é, não contei quantas notícias saíram em cada edição do novo Público para comparar com as edições antigas. Essa contagem pode ser um ponto de partida para algo mais interessante, ma para este post julgo ser irrelevante até porque o critério da quantidade é terreno pantanoso. Baseio-me numa evidência empírica para afirmar o empobrecimento geral do conteúdo do jornal, isto é, no facto de haver menos texto. Para os mais pessimistas, pode ser sinal da ditadura do grafismo e da ameaça do jornalismo light. Para os mais optimistas será talvez uma página de jornal visualmente moderna e adequada à leitura diária. Seja qual for a perspectiva que se adopte, parece seguro que com este grafismo, com os cortes feitos nos quadros redactoriais (incluem jornalistas, fotógrafos, gráficos, apoio de redacção como secretárias, informáticos e copy-desk), a ameaça é feita a dois pilares do jornalismo de referência – a diversidade e a profundidade de campo do olhar jornalístico.
A praticamente ausente remodelação do site. É certo que já era um dos melhores, ou o melhor no seu segmento. Mas um jornal que se tem a si próprio como um contemporâneo completo, não pode manter o site com notícias da Lusa e a versão online da edição impressa.
A transferência da secção de opinião para as últimas páginas. Perde a vizinhança do Destaque, o que é mau para ambas as secções. Não separa o destaque do restante noticiário e, portanto, não evidencia a importância acrescida da informação que se coloca em destaque. Para os opinion-makers, embora fiquem mais perto de uma das entradas do jornal, ainda assim não deixam de ir parar às traseiras. Provavelmente, é o menos grave dos defeitos. É só uma questão de habituação. Eu, pelo menos, ainda ando à procura.

++ Outros comentários ao novo Público ++

* Luís Santos, no Mediascópio considera o novo Público um produto mais dinâmico, mas sublinha que falta cumprir ainda uma parte da promessa. Designadamente, começar por fornecer os e-mails dos jornalistas, como reclama no blog Atrium. Além disso, aponta outras semelhanças gráficas do novo layout do Público, nomeadamente com os jornais Marca (Espanha) e Guardian (Inglaterra).
* Madalena Oliveira, também no Mediascópio, estranha o desaparecimento da secção Media.
* João Paulo Menezes, no Blogouve-se, pergunta se o novo Público é um Público novo.
* Paulo Querido, no Mas certamente que sim, lembra a diferença de papéis entre o músico e o DJ , a propósito do novo Público.
* O Samuel Silva, na Colina Sagrada, faz saber que a sensação foi como se tivesse mudado de mulher de um dia por outro. Agora, diz ele, é loira, cheia de rimel e baton. O Samuel já pondera seriamente o divórcio, porque parece que encontra outros defeitos nesta nova “relação”.
* O Daniel Oliveira solta, no Arrastão, a alma dorida com a reformulação do seu jornal de sempre.
* O Hélder Beja, no Lábios de Silêncio, esperou ansiosamente pela primeira edição.
* O Rui Afonso pintou, na sua Tela Abstracta, um retrato tal da sua aflição que teve direito a aparacer, na edição papel do dia seguinte, no Blogues (de) em Papel, um novo canto do novo caderno P2 do novo Público.

(ACT.: estou naturalmente à espera do fim-de-semana pra ter uma noção mais clara do que muda no Público e nos seus suplementos. Material para mais reflexão, quem sabe?)

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